Surdos oralizados

Publicado em: 14.março.2011

Por: Acessibilidade na Prática

De vez em quando, alguém me pergunta o que é um surdo oralizado.
 
Afinal, todo mundo já ouviu falar de surdos que se comunicam por sinais (e até acham que isso é comum de todo deficiente auditivo) e de gente que ouve usando aqueles aparelhos pendurados na orelha.
 
Por conta dessa falta de divulgação sobre o nosso grupo, dos surdos oralizados, decidi que precisava fazer um blog contando a minha experiência, o "Desculpe, Não Ouvi!". Minha preocupação principal era esclarecer sobre a diversidade que existe entre as pessoas que têm essa deficiência.  
 
Atualmente, com a divulgação da Libras, muita gente fica deslumbrada com a Língua de Sinais e acha que este idioma é comum a todo deficiente auditivo. A Libras é um idioma belíssimo e reconhecido oficialmente como segundo idioma oficial do Brasil, mas ela não contempla as necessidades de todo deficiente auditivo.
 
Essa idéia de que deficiente auditivo é sempre sinônimo de Libras ocorre muito porque, quando se aborda o tema da deficiência auditiva, rapidamente se vem à mente o estereótipo (e o termo errado) do surdo-mudo. Alguém que não fala, porque não ouve. E se não ouve, não poderia falar e, por isso a solução para se comunicar é a Libras.
 
Existem vários tipos pessoas que convivem com a limitação auditiva. Há quem consiga driblar a deficiência com aparelhos auditivos comuns. A pessoa vai lá, coloca um aparelhinho na orelha, passa a ouvir com essa ajuda e resolve tudo. Essas pessoas são chamadas de deficientes auditivos e, normalmente, possuem perda em grau leve ou moderado.
 
Mas existe também quem tenha deficiência auditiva severa e/ou profunda e não faça uso da Língua de Sinais. Pessoas com deficiência auditiva que, apesar de não ouvirem nem mesmo com aparelhos, falam normalmente (ainda que com sotaque típico) e se comunicam valendo-se da leitura labial. São pessoas que perderam a audição depois da aquisição da fala através da audição (também chamados de surdos pós-linguais) ou cujos pais acreditaram na oralização através da fonoterapia. O que os diferencia dos deficientes auditivos de graus mais leves é justamente o fato de serem incapazes de discriminar a fala auditivamente, mesmo utilizando próteses auditivas. O termo usado para referir-se a essas pessoas, é surdo oralizado.
 

Os surdos oralizados, em geral, não costumam ter muito interesse pela língua de sinais, porque a língua que se tornou natural é o idioma comum, no caso do Brasil, o português. Quando um surdo fala português oral e Libras, é chamado de bilíngüe ou bimodal.
 
Como os Surdos Oralizados são comumente confundidos com deficientes auditivos, já que conversam normalmente, muitas vezes, têm direitos e necessidades negados. Embora um surdo oralizado não negue as necessidades dos surdos que não são oralizados e respeite a Libras, ele também precisa de algumas adaptações para si.
 
Não adianta deduzir que todo deficiente auditivo sabe a língua de sinais e achar que basta por si só. Um surdo oralizado dificilmente vai entender uma janela com interprete de Libras na televisão, uma vez que não domina esse idioma. Um surdo oralizado precisa de legenda, porque geralmente tem facilidade de leitura e tem o português como base lingüística. Um surdo oralizado não quer um interprete de Libras numa palestra (a alternativa seria um interprete oralista, que traduza o que é falado, mas oralmente), mas quer sentar numa posição que lhe dê boa visibilidade do palestrante. Um surdo oralizado quer apenas um pouco de paciência e boa vontade do interlocutor, para falar com calma e de forma natural, sempre virado pra ele.
 
Muita gente acha que é obrigação de um deficiente auditivo aprender a língua de sinais, numa tentativa de homogeneizar a deficiência. Só que isso é um desrespeito à individualidade e à diversidade. Se o primeiro idioma que eu aprendi foi o português, é meu direito como cidadã brasileira tê-lo como primeiro (e até único) idioma. Não é porque uma parcela de deficientes auditivos usa a língua de sinais – que pra eles é útil e absolutamente necessária – que toda pessoa com déficit auditivo tem obrigação de utilizar esse idioma no dia a dia. Seria a mesma coisa que forçar todo deficiente físico, à revelia das suas condições, a usar cadeira de rodas e ponto. Rejeitar-se-ia o uso do andador, da muleta, das próteses e órtoses. Reduzindo todo e qualquer deficiente físico a cadeirante, sob alegação de que assim, é mais fácil fazer adaptações.
 
A leitura labial é uma forma de comunicação aceitável sim! Muita gente consegue se virar bem com ela. A leitura pode até não ser uma copia fiel da audição, mas é uma forma de comunicação tão válida quanto a audição ou a língua de sinais.
E todo surdo que quiser falar oralmente, tem o direito de se expressar dessa forma, mesmo que a voz dele tenha um sotaque característico de quem usa, no lugar do feedback auditivo, a vibração e ressonância óssea como controle de voz.
 
Atualmente, existe também a opção de um surdo oralizado ou não, que não consegue ouvir com aparelhos convencionais, recorrer ao implante coclear – um aparelho especial, inserido parcialmente por cirurgia, que permite recuperar boa parte da audição perdida ou ausente, reproduzindo artificialmente a estimulação do som natural, diretamente na cóclea – e passam a se comunicar ainda mais por via sonora. Nesses casos, os usuários do IC são chamados de “implantados”.
 
O implante coclear possui duas partes, uma interna e outra externa, que só funcionam em conjunto. Ele nos devolve parte da audição e permite a percepção maravilhosa do universo sonoro. Nem sempre o aparelho convencional tem potência suficiente para permitir que um deficiente auditivo ouça, por exemplo, o som da campainha, do interfone ou o miado do seu gatinho de estimação.
 
Mas, é importante lembrar que o Implante Coclear não cura a deficiência auditiva. Um surdo não deixa de ser surdo porque usa o IC, uma vez que ele só ouve quando usa também a parte externa do aparelho. Portanto, mesmo um surdo implantado continua sendo parte da diversidade dessa deficiência.
 
Nem todo mundo consegue chegar a compreender plenamente a fala através do implante. Varia muito conforme a idade em que foi feito o IC e o tempo em que se permaneceu ensurdecido. Mas, certamente, permite que se quebre o silêncio em casos de surdez severa e profunda. E ouvir não se limita a usar a audição para se comunicar. O universo sonoro é muitíssimo rico e vasto, fazendo com que “ouvir”, mesmo que de forma artificial, seja uma experiência maravilhosa.
 
É sobre essas experiências de surda oralizada e, atualmente, implantada, que relato em meu blog.
 
Numa época que se fala tanto em diversidade, em inclusão e em respeito à individualidade, as pessoas precisam conhecer todos os tipos de integrantes do vasto universo da deficiência auditiva, além de respeitar as necessidades intrínsecas e características de cada grupo, sem se sobrepor ou negligenciar as necessidades dos demais. Há espaço suficiente para todos!
 
 
Lak Lobato
 
Twitter: @LakL
 
 

14 ideias sobre “Surdos oralizados

  1. Tenho um amigo surdo oralizado (e bilingue). Conversamos mais por leitura labial do que emitindo qualquer som, mas com as outras pessoas ele realmente tem dificuldade para se comunicar, já que alguns não compreendem que aquele aparelho só ajuda um pouco.
    Abordagem pertinente sobre o tema e bastante instrutivo!

  2. Parabéns pelo texto, Lak!

    Este é apenas um dos exemplos de que, para fomentar a acessibilidade, temos que conhecer o contexto do assunto e as particularidades de cada tipo de deficiência.

    Cada "grupo" de portadores de necessidades especiais precisa de um representante como você: sensata, coerente, embasada e desapaixonada.

    Um grande beijo e muito obrigado por contribuir com nosso blog!

  3. Olá!!

    Muito interessante este post… Achei ótima sua explicação sobre as diferentes dificiências auditivas, mostranto que realmente nem todo surdo é mudo, como muitos pensam. Por isso acho de extrema importância estes posts, aprendo muito, e creio que temos que propagar este tipo de informação… Recentemente conheci uma criança com implante coclear, e achei o mecanismo, e a aprendizagem muito boas…

    Parabéns pelo texto esclarecedor!!!

  4. Gente..confesso que eu ERA ignorante a respeito disso! Classificava todos como deficientes auditivos! Achei muito inteligente o post e a explicação! Mais uma que eu levo comigo! Vivendo e aprendendo né!Parabéns!

  5. Excelente postagem!

    É sempre muito esclarecedor saber de relatos práticos daqueles que enfrentam especificidades de acessibilidade: isto mostra que devemos ficar mais atentos para não "nivelarmos" todas as necessidades especiais que parecem semelhantes aos desatentos (assim como eu, devo confessar), mas que merecem atenção especial!

    Muito obrigado pelas informações!

  6. Adorei esta postagem, e em aprender as diferenças das deficiências auditivas, e ainda na parte em que a Lakshmi diz que “um surdo oralizado quer apenas um pouco de PACIÊNCIA e BOA VONTADE do interlocutor, para falar com calma e de forma natural, sempre virado pra ele.”
    Simples, né?! Paciência e boa vontade por nossa parte, para principalmente conhecer e aprender as diferenças…….
    Quanta coisa nova eu estou aprendendo. Obrigada acessibilidadenapratica pela oportunidade!!!!
    Um beijãoooooo

  7. Massa…
    Tenha que entender um pouco…
    Existe entre 5% dos surdos se comunicarem diretamente por oral e 95% dos surdos se comunicarem com dificuldade por oral.
    Sou surdo oralizado, implantado… e "sinalizado" (uso de Libras). Oralizo e ouço muito bem, porém minha preferência é de Libras como é facil de comunicar diretamente entre grupo ou mais de duas pessoas.

    Beleza… 😉
    Nós podemos nos unir bem mais forte para ter interessante dos dois tipos (oral e sinal)

    Abraços

  8. Quanto a reportagem, amei! Tive perda súbita aos 20 anos, mas só comecei a usar aparelho aos 28 anos. Ainda estou me acostumando com essa minha nova realidade.Uso aparelho e não sei LIBRAS, mas estou estudando por necessidade do trabalho, e não por minha própria.

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