Fisioterapia x Acessibilidade

Publicado em: 11.abril.2011

Por: Acessibilidade na Prática

A fisioterapia foi considerada profissão de nível superior no ano de 1969. Em 1970, o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFITTO) definiu como função dos profissionais desta área “planejar, programar, ordenar, coordenar, executar e supervisionar métodos e técnicas fisioterápicos que visem à saúde nos níveis de prevenção primária, secundária e terciária”. Desta forma, a fisioterapia não somente atua sobre a capacidade física do indivíduo, mas em todos os fatores que podem influenciar beneficamente os resultados almejados durante as intervenções.
 
Os cuidadores, o posicionamento na cadeira de rodas e a acessibilidade à residência e aos locais públicos freqüentados por nossos pacientes são alguns dos fatores externos que influenciam na atuação do fisioterapeuta. Por isso, é importante que este profissional tenha uma visão global, analisando o indivíduo como um todo, ou melhor, considerando-o não apenas como um sistema motor, mas sim um conjunto físico, emocional e ambiental.
 
No ambiente externo, podemos citar os cuidadores, que convivem diretamente com o paciente, atuando em atividades simples e rotineiras, que influenciam na reabilitação e nos resultados de todas as terapias. Assim, a equipe multidisciplinar responsável, inclusive o fisioterapeuta, deve identificar os mobiliários e a rotina de cuidados necessários ao paciente. Para exemplificar, cito o banho de uma criança. Se a altura da banheira for muito baixa, conseqüentemente fará com que o cuidador adote posturas compensatórias para efetuar a atividade e, com o passar do tempo, esta postura viciosa acarretará dores, alterações de humor e uma sobrecarga emocional. Todo este processo pode ser evitado com uma simples adequação da altura da banheira, tornando-a acessível ao cuidador.
 
Adaptar, organizar e conscientizar a família e os demais envolvidos no tratamento abrange não somente a acessibilidade, mas sim a inclusão e a socialização por meio do uso de recursos tecnológicos e arquitetônicos, integrados a um bom entendimento acerca das necessidades especiais de cada indivíduo.
 
Observamos que a fisioterapia possui uma ampla visão quando considera o indivíduo como um todo, e a acessibilidade tem um papel fundamental em torno desta terapia. Isso acontece por que, apesar de termos contato com o paciente durante a sessão, o restante do dia ele permanece em casa, no trabalho, escola ou em outros ambientes que fazem parte de seu cotidiano.
 
Segundo a NBR9050, acessibilidade é a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos. Tal definição simplesmente resume o que a equipe multidisciplinar busca, ou seja, reabilitar e adaptar, oferecendo independência nas atividades de vida diária, profissional, esportiva e de lazer.
 
Dentro deste enfoque e pensando na função da fisioterapia, podemos afirmar que ambas são parceiras. Como exemplo, podemos citar a seguinte situação: Um idoso que, apesar de estar em declínio de sua capacidade física, com as intervenções fisioterapêuticas, tem condições motoras de subir uma rampa. Porém, quando vai ao banco e se depara com uma inclinação exagerada, não consegue superar o aclive. Portanto, o que adianta trabalharmos o sistema motor para que nossos pacientes possam exercer suas funções se não nos são oferecidos meios adequados e acessíveis?
 
Assim, ser acessível não é apenas uma simples construção arquitetônica realizada sem consciência, pois no caso deste idoso que não conseguiu subir uma rampa depois de ter trabalhado arduamente em suas terapias, a frustração virá logo depois. Por isso, é necessário saber o porquê da necessidade de um corrimão, uma rampa bem dimensionada ou uma vaga reservada com espaço satisfatório. Da mesma forma, não adianta exigir sem consciência, pois o ambiente pode até tornar-se acessível, porém nem sempre será respeitado pela sociedade, o que ocorre quando pessoas sem deficiências e limitações físicas ocupam as vagas reservadas de quem realmente necessita. Ser acessível engloba muitos ângulos e tem muitas repercussões. Pense em como um cadeirante, por exemplo, enfrenta a situação de não poder entrar em uma lanchonete por que a mesma não possui uma entrada acessível!
 
A fisioterapia não só depende, mas é parceira da acessibilidade, pois temos a necessidade de que nossos pacientes tenham bem estar e possam usufruir de todos os recursos, edificações e mobiliários existentes em seu cotidiano. A terapia sozinha não traz os mesmos resultados do que a atuação em conjunto. Cabe a nós profissionais cobrar, entender e buscar a reabilitação não apenas dentro do consultório, mas sim em todos os ambientes freqüentados e utilizados por nossos pacientes.
 
 
Por Maria Alice Furrer Matos Braz – Fisioterapeuta, especialista em Neuropediatria
 
Twitter: @marialiceff

6 ideias sobre “Fisioterapia x Acessibilidade

  1. A acessibilidade deveria ser o foco de varias profissoes (talvez nem seja exagero dizer TODAS AS PROFISSÕES).

    A Fisioterapia é relevante não apenas para condicionar os pacientes a superar obstáculos e as dificuldades impostas pelo seu próprio corpo, mas também possui relevância muito grande na conscientização da sociedade. Afinal, é o fisioterapeuta que lida diariamente com as dificuldades dos pacientes e, portanto, presenciam as situacoes em que a acessibilidade não é observada, tendo a oportunidade única de mostrar a todos a importância das medidas acessíveis.

    Parabens a todos os fisioterapeutas pela beleza do trabalho desenvolvido!

  2. Parabéns colega! Muito bem escrito; abordastes todos os pontos. Deveríamos ter disciplinas sobre acessibilidade nos nossos currículos na graduação, como disse o Ronny. Sabemos que nosso trabalho não é fácil e nem sempre valorizado, mas certamente quem já precisou de um fisioterapeuta reconhece o seu valor. Parabéns para nós FISIOTERAPEUTAS BRASILEIROS.
    karla siqueira
    (fisioterapeuta)

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