Auxílios ópticos para baixa visão

Publicado em: 22.abril.2015

Por: Acessibilidade na Prática

Auxílios e recursos para baixa visão

“Auxílios” são produtos, instrumentos, equipamentos ou tecnologia adaptada ou especialmente projetada para melhorar a funcionalidade da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, favorecendo a autonomia pessoal, total ou assistida. Basicamente, os auxílios para baixa visão podem ser divididos em: não ópticos, ópticos e eletrônicos.

Os auxílios ópticos são os que, de acordo com suas características ópticas, promoverão o melhor desempenho visual da pessoa com baixa visão. Eles podem ser classificados em “auxílios ópticos para ampliação da imagem” e “auxílios ópticos para relocação e condensação da imagem retiniana”.



Auxílios ópticos para ampliação da imagem


Esses auxílios consistem em aumentar a imagem retiniana. Dentre as ferramentas, podemos dividir os auxílios em auxilio óptico de ampliação para perto ou para longe.



Auxílios óptico de ampliação para perto


Pode-se utilizar lentes convexas ou telescópios. As lentes podem ser montadas em armações de óculos, lupas manuais ou lupas de apoio.


• Lupas: As lupas têm a função de aumentar a imagem retiniana. São utilizadas lentes convexas ou uma combinação de lentes. As lupas podem ser manuais ou de apoio. A lupa manual deve estar posicionada na distância correta (distancia focal) para que os raios permaneçam paralelos. Quanto mais próximo a lupa do olho, maior o campo de visão. As lupas manuais apresentam diferentes distâncias de trabalho (objeto-lupa), portanto o paciente deve ser avaliado junto com o oftalmologista para a prescrição adequada. Alguns modelos têm luz acoplada e melhora a iluminação do ambiente quando essa não for o suficiente. As lupas de apoio apresentam um suporte rígido que é apoiado sobre o texto a ser lido, podendo alguns modelos apresentar ajuste do foco (correção de erros refracionais). As lupas são muito utilizadas em pacientes com glaucoma em estágios mais avançados ou retinose pigmentar.


lupa 1
lupa 2

• Óculos binoculares e monoculares: Geralmente, para os óculos binoculares, são indicadas lentes esféricas positivas e lentes esferoprimáticas (com prisma posicionado para a base nasal em ambos os olhos). São indicados para pessoas com redução da acuidade visual para perto e próxima em ambos os olhos. O uso de lentes com prima posicionado na base nasal oferece maior conforto pois diminui a necessidade de convergência para a leitura de perto. Para os óculos monoculares existem diversos tipos de lentes, indicadas de acordo com a necessidade de dioptrias. Lentes esféricas (20 dioptrias), lentes asféricas (12-20 dioptrias), lentes microscópicas (24-48 dioptrias), doublets (2 lentes esféricas, 16-80 dioptrias), lentes bifocais (4-32 dioptrias). Lembrando que as lentes esféricas tem maior aberrações periféricas, e as asféricas e doublets tem aberrações óptica periférica reduzida.


• Sistemas telescópicos para perto (telemicroscópios): Os telemicroscópios são ferramentas que apresentam um menor campo de visão e uma menor profundidade de foco, porém seu uso é indicado para tarefas que requerem distâncias maiores que os outros recursos ópticos para perto (como leituras em distâncias maiores).



Auxílios ópticos de ampliação para longe

São representados principalmente pelos telescópicos para longe. Os sistemas telescópicos para longe indicados para baixa visão são chamados de telescópios refratores. São auxílios utilizados para aumentar a imagem de um objeto por meio da ampliação angular. São constituídas basicamente por 3 peças: objetiva (porção mais próxima do objeto), ocular (porção próxima do olho) e corpo (que pode ter vários comprimentos dependendo do modelo).

Os telescópios podem ser classificados de acordo com suas diversas características e parâmetros, os quais devem ser considerados ao prescrever para o paciente. São eles:

• De acordo com as lentes empregadas: Existem o modelo Galileu (utiliza lente esférica negativa na ocular e uma positiva na objetiva) e o de Kepler (utiliza lentes positivas na objetiva e na ocular). O primeiro gera uma pequena ampliação da imagem e o segundo apresenta uma qualidade óptica da imagem superior ao do Galileu.



telescopio monocular

• De acordo com o poder de ampliação: Existem telescópios com diferentes capacidades de ampliação e podem ser divididos em pequeno ou grande poder de ampliação.


• De acordo com o campo de visão: Podem ser classificado em pequeno ou com grande campo de visão. Os sistemas telescópios quem ampliam a imagem diminuem o campo de visão. É importante notar nesses aparelhos o tamanho da pupila de saída, que é calculada pela fórmula: pupila de saída = o diâmetro da objetiva / ampliação do sistema telescópio. A pupila de saída não deve ser maior que a pupila do paciente, pois isso leva à perda do campo de visão e de qualidade da imagem.

• De acordo com o diafragma do sistema: Existem telescópios com boa e má luminosidade da imagem. A quantidade de energia luminosa que o paciente necessita é variável para cada caso. A quantidade de energia luminosa é controlada pelo diâmetro da objetiva: quanto maior o diâmetro maior a luminosidade, porém objetivas com diâmetros grandes apresentam maiores aberrações de imagem e maior peso.


• De acordo com a capacidade focal: Podem ser afocais ou com foco ajustável. Os sistemas telescópicos afocais têm um foco fixo para distância maior de 6 metros. Os sistemas com focos ajustáveis podem ser usados para distâncias curtas, intermediárias e longas (ajuste possível através da modificação do comprimento do corpo do telescópio).


• De acordo com a montagem: Existe o sistema telescópico manual e os montados em armação de óculos. Os manuais são portáteis, discretos, com melhor estética e permitem maior proximidade do olho com a ocular (maior luminosidade, maior campo de visão e maior qualidade óptica da imagem). Os sistemas telescópicos montados em armações de óculos podem apresentar diferentes posicionamentos nas lentes do óculos: posição central (alinhados com a pupila do paciente); posição inferior (utilizados principalmente para leitura); e posição superior (onde o paciente precisa abaixar a cabeça e posicionar o olhar para cima; esses tem o campo de visão muito limitado; nos estados norte-americanos são usados para visualizar placas de sinalização durante a direção de veículos).


• De acordo com o uso monocular ou binocular. O sistema telescópico monocular deve ser utilizado no olho com maior acuidade visual. Os binoculares são indicados quando a acuidade visual é próxima em ambos os olhos.}


Auxílios ópticos para relocação e condensação da imagem retiniana

Como já foi dito, o defeito de campo periférico pode ser divido em dois grupos: hemianopsias (defeitos setoriais) e contração do campo visual. Pessoas que tem diminuição do campo visual apresentam movimentos compensatórios dos olhos e da cabeça para rastreamento do ambiente, e no inicio do quadro o paciente pode não apresentar queixas.


Auxílios para hemianopsias

O objetivo é trazer informações da área não funcionante para a funcionante do campo visual. Para isso pode-se utilizar prismas ou espelhos.

• Prismas: O prisma é capaz de deslocar a imagem do campo visual defeituoso para o campo visual funcionante. Para isso, a base do prisma é posicionada na direção do campo visual defeituoso, deslocando a imagem para o seu ápice. Os prismas podem ser posicionados sobre toda a lente ou apenas setorial.

• Espelhos: O espelho fornece uma imagem reversa do campo defeituoso. Podem ser setoriais ou de grande campo. Os espelhos setoriais são posicionados na região nasal sobre a lente do óculos, com a superfície refletora voltada para a área com campo visual defeituoso. Assim, o paciente pode olhar para o espelho e realizar uma varredura rápida do campo visual defeituoso. Os espelhos podem gerar escotomas em pacientes de olho único, mas esse pode ser evitado ao utilizar espelhos convexos, os quais apresentam menor dimensão. Além dos espelhos setoriais existem os modelos de grande campo, que são armações instaladas sobre o óculos. Eles apresentam superfícies espelhadas de reflexão parcial voltada para o campo não funcionante. A imagem do campo não funcionante é sobreposta à funcionante e é diferenciada pelo seu menor contraste e por ser reversa.



Auxílios para contração generalizada do campo visual

De maneira geral, os auxílios para contração generalizada visam condensar as informações periféricas dentro da ilha de visão e melhorar a eficiência do rastreamento. Os métodos mais utilizados são de minificação da imagem, lembrando que quanto mais se minifica a imagem menor será acuidade visual.

• Telescópios reversos: Podem ser acoplados a armações ou podem ser manuais. Existem várias potências para condensação. Os mais utilizados nesses casos são os de baixo poder.

• Lentes negativas: Funcionam através da minificação da imagem por meio de lentes negativas (-5 a -10 dioptrias), que são seguradas com o braço estendido.


• Espelhos: Também servem para minificar a imagem. Podem ser utilizados para a leitura, posicionado o espelho no plano do material a ser lido e outro acima do material. O leitor verá a imagem condensada no espelho no plano do material


• Prismas: Como já foi dito, os primais são utilizados para trazer informações do ambiente para a retina funcionante. Em alguns casos, pode-se acoplar prismas sobre o óculos nas quatro posições, formando um anel ao redor do centro da lente.


Os auxílios de ampliação do campo visual devem ser exaustivamente testados antes da prescrição e sua aplicabilidade deve ser considerada pelo paciente e pelo oftalmologista.



Auxílios ópticos para controle da iluminação


A luz é uma radiação eletromagnética não ionizante produzida naturalmente por reações termonucleares pelo sol ou artificialmente. A luz visível apresenta vários comprimentos de onda, variando de 380 a 780 nm, sendo que o sistema visual é mais sensível na faixa de 480 a 680 nm e menos sensível entre 380 e 480 nm (azul) e 680 a 780 nm (vermelho). Existem radiações ultravioletas UV-A (320 a 400 nm) e UVB (290 a 320), que são absorvidas pela córnea e pelo cristalino, enquanto a infravermelha ultrapassa livremente os meios ópticos e atinge a retina. O conforto visual durante atividades em ambientes externos é obtido quando a luminosidade está entre 350 a 2000 candelas/m².

O controle da luz incidente, fluorescência e dispersão dos raios luminosos são importantes para evitar efeitos como o glare e outros sintomas como cefaleia, cansaço, ardor ocular, lacrimejamento, redução da resolução visual e blefaroespasmo. Para um bom controle da iluminação, devemos atuar sobre a quantidade e a qualidade da luz incidente, diminuir a fluorescência e dispersão dos raios e atuar sobre a luz refletida nas superfícies.

Para o controle da iluminação, podemos usar os filtros solares que são próprios para proteger os olhos dos efeitos deletérios da luz solar. Além de proporcionar maior conforto, maior acuidade visual e maior contraste da imagem, contribui para
adaptação à luz ambiente sem alterar a percepção da cor (o melhor filtro é o que não altera a percepção da cor). Para a escolha ideal das lentes filtrantes, devemos considerar as seguintes características:

• Coloração: Não é o parâmetro único a ser considerado na hora de escolher a lente. A cor da lente não traduz a sua qualidade de absorção. A cor influencia na transmitância (quantidade de luz que atravessa completamente a lente dos óculos) e na percepção das cores do ambiente.


1) Lentes claras (como o rosa) com cerca de 75-85% de transmitância, podem ser usadas para diminuir o desconforto em luz ambiente.

2) Lentes escuras: Lentes com transmitância de 50% (muito escuras para ambientes internos e não suficientemente escuras para ambientes externos) e lentes com transmitância de 15-25% (são representados pelos óculos solares e são indicados para ambientes externos e direção de veículos durante o dia).

3) Lentes escuras com transmitância menor que 8% não devem ser empregados para direção de veículos mesmo durante o dia. Para a direção noturna, a transmitância não deve ser menor que 80%.

4) As melhores lentes são as que não alteram a percepção das cores do ambiente. Lentes cinzas são as que menos alteram percepção da cor.

5) Lentes marrons absorvem seletivamente a porção azul e aumenta a transmitância para o vermelho. São indicadas para pacientes com protonomalia e protanopsia e devem ser evitadas em pacientes com deuteranopsia e deuteranomalia.

6) Lentes verdes absorvem a luz vermelha e azul e apresentam máxima transmitância para o verde. Não são indicadas para pessoas com defeitos de visão de cores.

7) As lentes vermelhas, laranja e amarela absorvem a luz de curto comprimento e tem alta transmitância para vermelho, amarelo e laranja. As lentes amarelas podem reduzir o glare na visão noturna, mas ao mesmo tempo podem diminuir a visibilidade noturna. Lentes vermelhas podem ser indicadas para pacientes com dificuldade de adaptação no escuro, fotofobia importante e pacientes com acromatopsia.



• Densidade óptica: Regula a quantidade de transmitância da luz. Quanto maior a densidade do filtro, menor a transmitância.


• Fotocromacidade: São lentes que mudam de cor de acordo com exposição à luz ou à radiação ultravioleta. Em ambientes externos fica com transmitância em torno de 20-25%. Possuem algumas desvantagem como: escurecer rápido à luz solar (porém tem uma maior intervalo de tempo para clarear em ambientes escuros) e não escurecer integralmente dentro de automóveis.


• Presença de superfícies espelhadas: Aumenta a reflexão dos raios e diminui a transmitância da lente. São indicadas quando é necessário diminuição importante da transmitância.


oculos


Leia também: Baixa visão: classificação quanto ao perfil de resposta visual

                       Auxílios não ópticos para baixa visão

                       Auxílios eletrônicos para baixa visão



Dr. Paulo Miziara – Médico Residente em Oftalmologia


E-mail:[email protected]


Fonte: Coleção CBO – Série Oftalmologia Brasileira


Imagens: Google



2 ideias sobre “Auxílios ópticos para baixa visão

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