Como conseguir um cão-guia

Simon é um Labrador que nos encantou nessa matéria sobre sua aposentadoria, ao cumprir a missão como cão-guia do radialista Alberto Pereira. No caso do Alberto, ele e sua família vão continuar com o Simon, mas caso não pudessem manter o animal, ele iria para um abrigo.




Primeiro eu estava um pouco frustrada por não conseguir falar com nenhuma das ONGs que localizei na internet que treinam e disponibilizam cães-guia para deficientes visuais no Brasil. Daí, falando com o Lucas Radaelli, que inclusive já escreveu aqui no blog sobre sua experiência com um cão-guia, é que consegui ter um panorama melhor de como conseguir um. Para começar, no Brasil isso não é nada fácil. Liguei e mandei e-mail para todas as ONGs que achei no Google e não tive sucesso. Com o Lucas não foi diferente. Ele buscou seu animal no exterior, na Organização Guiding Eyes. De acordo com a Federação Internacional de Cães-Guia, o lugar mais próximo para um sul-americano conseguir um cachorro seria indo aos EUA ou Canadá. Moleza!

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Curiosidades sobre o cão-guia

Sempre que o assunto são os cães-guia, noto duas coisas que acontecem e que levam a um entendimento errado de como eles trabalham. Por um lado, subestimam a capacidade deles, pelo fato de desconhecermos como funciona a inteligência animal. E por outro, superestimam as capacidades do cão, atribuindo a ele algo que pensam que o deficiente não é capaz de fazer.

O erro mais clássico é “Como o cão sabe para onde levar o dono?” – E eu respondo, ele não sabe.

Este é um caso onde estão superestimando as capacidades dele. Os cegos, em geral, sabem onde estão e para onde vão. É meio bobo escrever isso, mas é importante ressaltar; não foram poucas as vezes na rua que me perguntaram se eu sabia para onde estava indo. Com isso em mente, a pergunta que vem é: como você se localiza? E a resposta é uma daquelas que, na teoria é simplista e na prática é complicada, mas vamos lá. Por meio dos sons do lugar, noção de espaço, pontos de referência (calçada, pontos de ônibus, etc), eu sei onde estou. Eu sei que se sair da minha casa e descer uma quadra estarei na rua tal com tal… se for para a direita vou para tal rua, e assim continua. É justamente assim que o cão trabalha. Os cegos dão os comandos para ele: frente… para o meio fio, esquerda, frente… etc. Resumindo: o cego sabe para onde vai, o cão leva ele até pontos específicos do caminho.

Por esse motivo, é necessário que o cego tenha tido um curso de mobilidade com a bengala antes de receber o cão. O trabalho é conjunto, a tomada de decisões é coletiva, a responsabilidade é da dupla e não só de um indivíduo.

Continuando na série dos maiores erros de como “funciona um cão-guia”, erros vão acontecer. Não é como pensam algumas pessoas: “uma vez treinado nunca esquece”. É necessário que sempre se refaça exercícios que fixam a maneira a qual ele deve agir em determinadas situações.

O principal motivo pelo qual um cachorro comete erros é porque se distraiu com algo. Cheiros, pessoas, etc. Cabe aqui relembrar o que muitos já sabem ou deveriam saber: nunca mexa com um cão que está trabalhando (guiando uma pessoa cega), pois você pode distraí-lo. Ele precisa se concentrar ao máximo no trabalho e, quanto mais pudermos facilitar essa tarefa para ele, melhor. E não é só isso. Esses cães sabem diferenciar quando estão trabalhando e quando é “hora pra brincadeira”.  Ou seja, uma disciplina é imposta, o que ajuda e muito no trabalho dele.

Outro assunto que também me perguntam com frequência: Como funciona a vida dele? Com que idade ele começa a ser treinado?

Os cães ficam até um ano ou um ano e meio de idade com uma família adotiva, a qual cuida dos cães e ensinam bons modos. Após esse período, eles recebem um treinamento de 5 meses com o treinador, e o último mês de treinamento é feito junto da pessoa que usará o cão.

A maioria se aposenta perto dos 9 a 10 anos de idade, mas não existe uma regra que defina bem isso.

O cão-guia é uma ótima alternativa para muitos deficientes visuais, e é uma pena que o seu número seja muito pequeno ainda no Brasil. Há vantagens e desvantagens, mas todos que conheci até hoje e que andaram com um cão-guia só se lembraram das vantagens. É uma liberdade de caminhada não experimentada antes… é como enxergar novamente.


Lucas Radaelli – Deficiente visual e usuário de cão-guia

Twitter: @LucasRadaelli