Pessoas com deficiência e os exames médicos do Detran

Publicado em: 13.setembro.2017

Por: Acessibilidade na Prática

Depois do acidente que me deixou tetraplégico, em 2008, uma das minhas grandes tristezas foi a impossibilidade de dirigir. Ainda pequeno, “dirigia” as tampas de panela da minha mãe pela casa, com direito a roncos de motor e cantadas de pneu feitos com a boca, já me imaginando ao volante de um carro. Quando perdi boa parte dos movimentos do corpo, aquele meu sonho de criança (e de grande parte dos brasileiros, especialmente dos homens) tornou-se dolorosamente improvável de acontecer, apesar de já tê-lo realizado em 1999.

 

 



Em 2012, quando iniciei meu tratamento no Acreditando, dirigir voltou a ser algo possível para mim. Lá, conheci o Pacheco e o Chico, dois “tetras” que dirigiam (legalmente!) seus próprios carros adaptados, algo inimaginável por mim até então. Esses caras me inspiraram a lutar por isso, e até hoje me inspiram a continuar tentando fazer o que eu não consigo 😀 .

Em meados de 2012, decidi dar entrada no processo de renovação da minha CNH. Pesquisei sobre a legislação e as adaptações necessárias para eu dirigir, e logo percebi que seria algo bastante desafiador, porém eu não imaginava que haveriam “dificuldades adicionais”.

Iniciei o processo dando entrada no Detran do Shopping Campo Grande, onde a médica que me atendeu, muito educada por sinal, me encaminhou para a junta médica na sede do Detran. Até aqui, tudo dentro do esperado. Na data marcada, fui submetido a uma junta composta por três médicos. Eu estava seguro e tranquilo, pois já havia lido e relido sobre as “regras do jogo”. Porém, para a minha surpresa, os médicos não me examinaram, apenas mediram minha força de preensão manual no dinamômetro, que era praticamente nula. Resultado: me rebaixaram de categoria (de AD para B), determinaram as adaptações que eu deveria usar no carro e solicitaram que eu fizesse um teste de pista (prova prática). Indignado, questionei a metodologia da avaliação médica, o porquê do rebaixamento de categoria e outros detalhes que eu não havia compreendido. Um dos médicos, extremamente malcriado, me respondeu que aquele era o procedimento correto, encerrando meu atendimento em seguida. Fiquei sem qualquer esclarecimento.

Saí da sala “P” da vida! Fui para casa, me acalmei (demorou uns dias) e procurei o setor do Detran responsável pelo tal teste de pista, onde um atencioso senhor informou que me daria aulas num veículo adaptado do próprio Detran.

 

 



Na primeira aula, constatei que o carro não possuía comandos manuais adequados para tetraplégicos (alavanca que acelera o motor aplicando-se uma força para baixo, ao invés de puxando-a para si). Sem opção ou alguém para reclamar, encarei a situação e me virei como pude. Fiz o número exigido de aulas e, após algumas semanas, realizei o bendito teste de pista, quando finalmente consegui comprovar minha aptidão para dirigir.

 

 

 


Quando recebi minha CNH em casa, recheada de letrinhas no campo “observações”, senti que era o início de uma nova fase. Alguns podem até achar isso banal, mas depois de tanto estresse e esforço, eu havia reconquistado algo importante, e finalmente pude perceber a importância dos pequenos ganhos diários na fisioterapia, que me permitiram melhorar, entre outras coisas, tronco e braços, fundamentais para dirigir com segurança.

De lá para cá foi só alegria! Obviamente, tive de reaprender tudo, descobrir essa nova forma de dirigir e me aperfeiçoar, afinal, antes eram quatro “patas” para fazer o carro andar, hoje são apenas duas. Foram mais de 40.000 km à bordo da minha viatura adaptada, e sem nenhum acidente!

 

 

 


Até que, em 2017, chegou o momento de renovar minha CNH, agora já “adaptada”. Inocentemente, achei que tudo seria mais tranquilo, pois o pior havia passado cinco anos antes, mas novamente fui surpreendido no exame médico. A primeira solicitação do doutor foi para que eu apertasse o bendito dinamômetro. Tive que ouvir frases como “você não tem força nenhuma!”, “como aprovaram você na junta médica?”, “me mostra aí como você faz para dirigir”, “se eu estivesse na sua junta médica, você não teria passado!”, e por aí vai. Como eu havia me preparado espiritualmente para a ocasião, mantive a calma e argumentei educadamente com o médico. Enquanto ele mexia no computador e resmungava de lá, eu rezava de cá pedindo a Deus que tivesse misericórdia de mim. No final das contas, ele me “liberou”, porém não escapei de encomendar meus primeiros óculos, mas isso é mais do que correto. Até agora não sei qual foi a daquele médico: se ele queria me assustar, se estava inseguro ou se era meio doido mesmo.

Vivemos num país absurdamente burocrático, onde somos extorquidos diariamente com impostos exorbitantes e usufruímos de péssimos serviços públicos. Às vezes me sinto um insano tentando unir minhas forças às de outras pessoas que sonham com um Brasil melhor, mas não posso desistir de brigar. Sim, “brigar”, pois “luta” tem regras, briga não.

O processo para a obtenção da CNH no Brasil é por si só questionável, mas a maneira como os exames médicos são realizados é deplorável e prejudica a todos, especialmente as pessoas com deficiência. Não se trata de coitadismo ou de privilégios, mas da urgência em haver coerência nas avaliações. Acredito que nenhuma pessoa com deficiência queira burlar a lei ou colocar a vida de outras pessoas em risco, mas é necessário o mínimo de critério e respeito para se permitir ou mesmo proibir alguém de dirigir.


Não podemos continuar aceitando ser “classificados” por médicos despreparados, mal-humorados e sem compromisso com as pessoas. Também não devemos ter medo de denunciar irregularidades ou solicitar melhorias a órgãos como, no caso do Detran, o Ministério Público Estadual. Entendo que há receio, pois quando optamos pelo litígio, as operações se estendem por muito mais tempo, mas se permanecermos inertes, dificilmente veremos melhoria neste ou em qualquer outro serviço prestado com exclusividade pelo governo.


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Frederico Rios



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