Bebê a bordo!

Publicado em: 06.agosto.2014

Por: Acessibilidade na Prática

Se a maioria dos bebês for como o meu filho João Miguel, quanto mais “emoção”, mais carrinho balançando, mais empinadas para subir as guias e mais desviadas de buracos, melhor será a “aventura” e depois mais fácil pegar no sono. Costumo até brincar quando estou com ele no colo dizendo: “Acho que você está com saudade das ruas e calçadas de Campo Grande. Papai vai balançar você”.


Sendo assim, preferi descrever algumas situações utilizando fotos que mostram a visão dos pais, pois se fosse sob a ótica dos bebês, eu teria que escrever para um blog de aventura.

Como moramos num apartamento no Centro da cidade, geralmente fazemos compras e resolvemos nossas pendências a pé mesmo. No momento em que estamos saindo do prédio com o João Miguel, minha esposa e eu já começamos a pensar: “Qual lado da rua é melhor para andar? Quais cruzamentos são mais fáceis de atravessar? Onde as calçadas são melhores e não estão interditadas? Qual caminho possui mais sombra para o sol não bater no rosto do João Miguel?”. E assim iniciamos nosso passeio.

Mesmo com um certo planejamento, enfrentamos alguns probleminhas de acessibilidade durante nossa jornada, os quais – pelo menos os principais – compartilho hoje com vocês. 

Algumas observações do passeio:

 

Foto 01

Foto 1

Foto 1 – Este tipo de piso, por ser muito irregular, provoca grande trepidação no carrinho e gera muito desconforto ao bebê. Além disso, há o risco de as rodas travarem em alguns pontos. Nesse dia, estávamos utilizando um carrinho do tipo “guarda-chuva”, que facilita a locomoção e suaviza a trepidação. Se estivéssemos num carrinho do modelo “travel system”, o desconforto seria ainda maior.


Foto 2.1

Foto 2

Foto 2 – Calçada em situação de abandono tanto por parte dos proprietários do imóvel quanto por parte dos fiscais da Prefeitura. Em locais como esse, recomendo ao condutor do carrinho atenção redobrada, pois num outro trecho semelhante, uma das rodas do carrinho do João Miguel travou e quase causou um pequeno acidente.


Foto 2.2

Foto 3

Foto 3 – Esse é o tipo de situação que merecia montagens do tipo:

O que meu filho pensa quando vê uma calçada assim: “Finalmente meu pai me trouxe para um rally! Agora só falta chover para ficar ainda melhor!”.

O que eu penso quando vejo uma calçada assim: “Ainda bem que não choveu, senão teria que carregar o carrinho no colo para não ficar na lama!” (baseado em fatos reais).

O que os fiscais fazem quando veem uma calçada assim: “ZzzZzzZzz”. Bem, talvez só passaram e não viram, pois no final do ano passado essa calçada estava na mesma situação!

Gostaria de fazer uma observação sobre a questão das calçadas, pois trata-se de um problema encontrado em diversas regiões da cidade (calçadas irregulares, falta de piso tátil e outros). Talvez os fiscais estejam realmente notificando e multando os proprietários dos imóveis e mesmo assim a correção não é feita. Nesses casos, acredito que seria viável um projeto de lei que permitisse a intervenção da Prefeitura para regularizar a calçada e o custo fosse cobrado do proprietário ou inserido como débito imobiliário. Ao pesquisar sobre o assunto, descobri que algumas Prefeituras do país estão buscando essa solução.


Foto 03

Foto 4

Foto 4 – Obra com falta de planejamento e de respeito, prejudicando a passagem de qualquer pedestre. Pela foto, é possível perceber que a construtora teve o cuidado de dividir a calçada em duas (dois espaços para as pessoas passarem) para realizar as obras necessárias, mas a divisão não tem nenhuma utilidade, já que os dois lados estão interditados. Observação: a calçada está interditada há pelo menos duas semanas. Soluções para quem deseja passar: desistir e voltar ou contornar pelo meio da rua.


Foto 04

Foto 5

Foto 5 – Agora darei “dicas” de como fazer para atravessar este cruzamento. Tirem suas conclusões 😉

1º) Espere o sinal principal fechar, mas não esqueça de cuidar dos veículos que fazem a conversão;

2º) Empine levemente o carrinho para descer a guia, já que nesse cruzamento não existe uma das rampas;

3º) Ao iniciar a travessia, você perceberá grandes ondulações onde foram pintadas as linhas da faixa de pedestres, exigindo cuidado para não perder o controle do carrinho. Ainda não encontrei uma explicação para a existência dessas ondulações, mas tudo indica elas foram colocadas ali para tirar sua atenção e fazer você esquecer dos veículos que estão fazendo a conversão. (Viu como você já tinha se esquecido deles? E ainda não estava nem na metade da travessia!)


Parece muita coisa, mas você verá que, em algumas situações, ainda será necessário segurar a capota do carrinho para proteger os olhos do bebê dos raios solares.


Foto 5.1

Foto 6

 

Foto 5.2

Foto 7

Fotos 6 e 7 – Fato curioso: boa parte das lojas do Centro que vendem produtos para bebê não possui rampa para facilitar o acesso. Entretanto, fiz questão de tirar foto de uma das lojas que possui 🙂


Foto 6.1

Foto 8

 

Foto 6.2

Foto 9

 

Foto 6.3

Foto 10

 

Foto 6.4

Foto 11

Seria cômico se não fosse trágico! Observem essa sequência de fotos. Na foto 8 temos um cruzamento com semáforo para pedestres, porém não existe rampa. Mas o detalhe principal está no canteiro central: não tem para onde ir! Ou você passa pela grama do canteiro central ou – se estiver com carrinho – terá que ir pela rua, como fiz na foto 9. Na foto 10 visualizamos a mesma situação, porém mostrada pelo outro lado do cruzamento. Considero a situação da foto 11 a mais cômica: o botão de acionamento do semáforo pelo pedestre fica no meio da grama do canteiro central, ou seja, se a pessoa tiver alguma deficiência ou estiver com um carrinho de bebê, não é recomendado apertar o botão, pois o risco é ainda maior. Lembrei daqueles jogos: “Desafio: apertar o botão. Recompensa: parar o sinal”.


Encerrando esse post, gostaria de deixar uma recomendação para auxiliar os papais de primeira viagem com relação à escolha do carrinho de bebê. O primeiro carrinho que compramos para o João Miguel foi o modelo “travel system” (foto 9), que é um carrinho mais prático pelo fato de ter o bebê conforto adaptado, que também serve de cadeirinha para o automóvel e é excelente para ambientes fechados (casa, escritórios, lojas), além de proporcionar um conforto maior principalmente nos primeiros meses de vida do bebê. Porém, caso você utilize frequentemente o carrinho para longos trajetos, especialmente em situações como as descritas anteriormente, recomendo a compra do carrinho tipo “guarda-chuva”, que permitirá maior mobilidade e segurança para empinar, inclinar lateralmente e desviar de buracos, oferecendo também menor trepidação.

Meu “conselho” final é que, apesar desses contratempos do dia a dia, os filhos são uma grande dádiva de Deus. Se você tiver oportunidade, tenha-os. Não existe falta de acessibilidade para o sorriso de uma criança pois ele é capaz de penetrar os corações mais duros e tristes, e compensa qualquer problema! 🙂

Abraços!!!


Thalis Hamed – Administrador de Empresas


Fotos: 31/07/2014, em Campo Grande – MS



2 ideias sobre “Bebê a bordo!

  1. Fantástico post! Claríssimo, mostra desafios comuns nas grandes cidades brasileiras, que dificultam a vida de qualquer pessoa com mobilidade reduzida…
    É uma pena que falte ação do poder público num caso desses, porque muitos acidentes poderiam ser evitados.
    Abraço!

  2. Olha, vou dizer que senti na pele o que um cadeirante sente quando tive meu filho Gabriel e o levava para passear no carrinho de bebê. Moro em São Paulo e percebi que a cidade não está nem um pouco preparada para as necessidades dos cadeirantes, simplesmente inadimissível. Pode parecer meio leviano eu dizer isso, já que só reparei quando o problema aconteceu comigo. Mas, acho que o importante é conscientizar as pessoas. Bem bacana o blog, parabéns pela iniciativa.

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