Pessoas com deficiência e os exames médicos do Detran

Depois do acidente que me deixou tetraplégico, em 2008, uma das minhas grandes tristezas foi a impossibilidade de dirigir. Ainda pequeno, “dirigia” as tampas de panela da minha mãe pela casa, com direito a roncos de motor e cantadas de pneu feitos com a boca, já me imaginando ao volante de um carro. Quando perdi boa parte dos movimentos do corpo, aquele meu sonho de criança (e de grande parte dos brasileiros, especialmente dos homens) tornou-se dolorosamente improvável de acontecer, apesar de já tê-lo realizado em 1999.

 

 



Em 2012, quando iniciei meu tratamento no Acreditando, dirigir voltou a ser algo possível para mim. Lá, conheci o Pacheco e o Chico, dois “tetras” que dirigiam (legalmente!) seus próprios carros adaptados, algo inimaginável por mim até então. Esses caras me inspiraram a lutar por isso, e até hoje me inspiram a continuar tentando fazer o que eu não consigo 😀 .

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Circulando por Miami Beach

Todos nós sabemos que as coisas não são nada fáceis aqui no Brasil quando o assunto é acessibilidade e mobilidade urbana. Basta darmos uma volta no quarteirão para enfrentarmos grandes e “emocionantes” desafios 😕 . Por isso, não é raro ouvirmos pessoas com deficiência dizerem que sonham em “fugir de casa” e morar fora do país, especialmente nos Estados Unidos, onde a acessibilidade é bem melhor que aqui, especialmente em Orlando e Miami, que são cidades preocupadas em receber bem seus turistas.

Como poucos de nós temos oportunidade sequer de passear na “Terra do Tio Sam”, nossa correspondente internacional Adriana 😀 resolveu compartilhar conosco algumas imagens de sua viagem por Miami Beach. Vamos conferir?

Vejam a seguir trechos de uma calçada localizada na 4th street:

Calçada com piso regular, firme e estável. Deve ser uma delícia rodar nela com a cadeira de rodas!


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A mesa dos sonhos de todo cadeirante!

Entre os vários perrengues que passo por ser cadeirante, um dos que mais me tiram do sério é a falta de mesas acessíveis para fazer uma simples refeição. São raros os restaurantes, lanchonetes e praças de alimentação onde consigo me acomodar adequadamente com a cadeira de rodas, sendo necessário, muitas vezes, ficar de lado na mesa, me posicionar muito distante da comida ou até mesmo pedir ajuda para outra pessoa, já que não tenho destreza nas mãos. 


Pode parecer inofensivo, mas experimente sentar numa cadeira de rodas e se aproximar de uma daquelas mesinhas com apoio central, comum em lanchonetes, ou então de uma mesa de plástico. É terrível! 

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Protegendo o carango

Definitivamente, o brasileiro é um apaixonado por carro. Antes mesmo de sonharmos com a casa própria já estamos ralando para comprar um automóvel, pois na pior das hipóteses podemos morar dentro dele 😀 , e num país onde a acessibilidade e a mobilidade urbana estão longe do razoável, pessoas com deficiência ou dificuldade de locomoção movem montanhas para adquirir um meio de locomoção.


 


O que poucas pessoas se atentam é que nós, mortais com deficiência, também podemos gostar de carro. Não tem essa de “pode ser de qualquer cor” ou “pode pegar emprestado e devolver quando quiser”. No entanto, é complicado cuidarmos do veículo de maneira adequada justamente pela nossa falta de mobilidade, e no caso dos cadeirantes, manusear a cadeira de rodas acaba estragando a pintura e o estofado, e acabamos desencanando de cuidar do carro.

Neste post, mostrarei a maneira que encontrei para evitar que a cadeira de rodas estragasse o carro da minha esposa. São soluções simples e que podem ser aplicadas em qualquer carro. Confira!


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Boutique sensual inclusiva

Conseguir trabalho em tempos de recessão econômica é desafiador, e para quem tem deficiência o desafio é ainda maior. Mobilidade urbana deficitária, acessibilidade precária nos estabelecimentos, ausência de cultura inclusiva nas empresas e dificuldade para se qualificar são os fatores que mais atrapalham a vida de quem tem deficiência e sonha em melhorar de vida.

 

No entanto, alguns empreendedores “fora da curva” nos surpreendem positivamente ao abrirem suas empresas e suas mentes para a rica oportunidade de inserir alguém com deficiência nas suas equipes. É o caso da Labareda Boutique Sensual, que sob comando da Psicóloga Karina Brum, aceitou o desafio de contratar uma deficiente visual. Confira seu relato:

 

 

 

 

“A Labareda sempre buscou atender seus clientes com que há de melhor no segmento, priorizando discrição e inovação. Quando nos propusemos em contratar uma colaboradora com deficiência visual, tínhamos em mente proporcionar aos nossos clientes um atendimento mais “discreto”. Foi uma experiência desafiadora para nossa empresa e, principalmente, para mim. É muito mais tranquilo lidar com frustrações e dificuldades de pessoas que “enxergam”. Esta colaboradora superou todas as minhas (as nossas) expectativas. Dona de uma memória fenomenal, ela recebeu o mesmo treinamento dado às outras atendentes, e acredite, ela aprendeu tudo em menos de dez dias! Pessoas videntes ou “normais” – como algumas pessoas desinformadas insistem em dizer – demoram em média quatro meses para alcançar essa “proeza”. Ela conseguiu aprender, estudar e assimilar todas as informações em menos de quinze dias! Ela mesmo nos ensinou a etiquetar em braille os produtos. Alcançamos um mercado nunca antes atingido. Tivemos um aumento no número de clientes com deficiência e, como era esperado, os clientes do gênero masculino se sentiam muito mais à vontade em serem atendidos por ela do que pelas vendedoras que enxergam. Foi uma experiencia gratificante e enriquecedora. Aprendemos muito com essa colaboradora, uma menina batalhadora e de um bom humor invejável. Nada a tirava do sério, a não ser quando ela “se esquecia” de algum detalhe do tipo: falar com o cliente olhando pra ele. Ela se sentia mal quando não conseguia interagir com o cliente no campo sonoro e visual. Ela era muito vaidosa, uma mulher com “M” maiúsculo, e pasme: seu setor preferido para atender e vender era o de artigos fetichistas. Ela aprendeu mais de trinta tipos de nós da técnica de Shibari. Minhas funcionárias até hoje só sabem quatro (risos nervosos). Gostaria de ainda tê-la conosco, mas pessoas bem qualificadas como ela crescem e batem asas. Sentimos muito orgulho e alegria quando falamos dessa colaboradora, que nos trouxe dias de luz, de paz e, certamente, de boas vendas!”

Analisando pequenos exemplos como este, percebemos que pessoas com deficiência não precisam de “assistência” ou “favores”, mas de OPORTUNIDADES. Qualquer pessoa pode adquirir conhecimentos técnicos, principalmente se o lado humano estiver “em dia”, mas para isso é necessário proporcionar um ambiente de trabalho adequado, onde “todos” possam expressar suas potencialidades e concorrer entre si em igualdade de condições.

 

 

Leia também: Cartilha Negócios Acessíveis

 


Maria Alice e Frederico Rios