Série: Calçadas Reformadas (4/4)

Publicado em: 29.setembro.2011

Por: Acessibilidade na Prática

Dando continuidade à nossa Série de postagens sobre calçadas reformadas e construídas recentemente em Campo Grande.
 

Rua Antônio Maria Coelho, entre as Ruas Bahia e Rio Grande do Sul

O primeiro lote (parte inferior da foto) possui revestimento antiderrapante, porém com rachaduras. Já o lote acima apresenta revestimento com cerâmica, o qual não é antiderrapante. Ambos os lotes possuem piso tátil em cor contrastante com a do piso e faixa livre de circulação adequada.
 
Notem a presença de piso tátil de alerta entre um lote e outro, porém qual a sua função? Alertar a mudança de lote? Este tipo de sinalização não é prevista na NBR9050, onde o piso tátil de alerta deve ser instalado em situações pontuais.
 
Na mudança de lote existe um desnível com rachaduras, o qual, além de causar trepidação, pode provocar tropeços e quedas.
 
No canto superior esquerdo da foto, notamos um canteiro com quinas vivas e revestimento liso. Um pedestre pode vir a escorregar e colidir contra esta quina, podendo se machucar seriamente.
 


Rua Eduardo Santos Pereira esquina com a Rua 25 de Dezembro
 

O revestimento é de pedra portuguesa, que para tornar-se adequada, deve ser de boa qualidade, bem instalada e ter manutenção periódica.
 
Presença de piso tátil de alerta e direcional em cor contrastante com a do piso.
A composição entre o piso tátil de alerta e direcional está correta. Na esquina, o piso tátil de alerta (amarelo) indica mudança de direção e, mais a frente, a presença de um rebaixamento de guia. 
 
O exemplo de sinalização tátil em rebaixamento de guia, ilustrado nesta foto, não segue o exemplo indicado pela NBR9050. Mesmo não seguindo a norma, se todos os rebaixamentos seguissem um padrão que atendesse as necessidades dos deficientes visuais, não existiriam ressalvas, mas como não há um padrão, torna-se difícil a interpretação da instalação destes pisos. Sem contar que, se o rebaixamento de guia estiver todo revestido por piso tátil de alerta, provocará trepidação na cadeira de rodas, além do desperdício de material. 
 
No centro superior da foto há uma caixa de papelão com lixo no meio do piso tátil, ou seja, além de a instalação de estruturas acessíveis, a população deve conscientizar-se quanto ao seu uso. O lixo depositado em locais inadequados, além de poluir o ambiente, acaba impondo barreiras às pessoas.
 

Continuação do lote anterior, com as mesmas características já citadas. Fica claro que há previsão da faixa livre de circulação e, dentro da fixa de serviço, estão placas, postes e área verde, respeitando a circulação dos pedestres.
 
Novamente outro rebaixamento de guia, revestido inadequadamente de piso tátil de alerta em toda sua extensão.
 
Presença de uma tampa de inspeção/visita (canto direito da foto) nivelada com piso, porém sem revestimento antiderrapante.
 

Rua Joaquim Murtinho, entre as Ruas Padre João Crippa e José Antônio

Calçada com piso tátil direcional em cor contrastante com a do piso. O revestimento desta calçada é antiderrapante e, em quase todo o trecho deste lote, a calçada é regular, porém existem algumas rachaduras no percurso. 
Mais a frente (canto superior direito da foto) notamos um canteiro em péssimo estado de manutenção, além de possuir quinas vivas.
 
A estética do ambiente também deve ser levada em consideração, onde uma harmonia mais adequada de cores e uma manutenção neste local deixariam a circulação do pedestre mais agradável, segura e confortável.
 

Presença de piso tátil, contrastante com o piso. O revestimento deste trecho é antiderrapante, porém com inúmeras rachaduras, evidenciando a falta de manutenção.
 
Novamente a existência de canteiros com quinas pontiagudas, além de estarem mal conservados.
 
Na esquina, existe um rebaixamento de guia sinalizado. No centro da foto, logo na esquina, podemos visualizar uma sacola de lixo (laranjada). Reiterando que o depósito de lixo deve ser feito em locais adequados e não em qualquer ponto da calçada, pois interfere na circulação dos pedestres.
 


Rua José Antônio, entre as Ruas 15 de Novembro e 7 de Setembro
 

Presença de sinalização tátil, porém o piso tátil direcional tem baixo contraste com o piso adjacente. O revestimento da calçada é inadequado, de cerâmica, ou seja, não é antiderrapante.
 
No centro da foto, nota-se que o piso tátil direcional foi instalado rente ao canteiro, situação inadequada, já que este piso deve ter área livre de 0,60 cm em ambos os lados.
 
Existe um rebaixamento de guia, mas com composição de sinalização tátil direcional e de alerta não correspondendo ao exemplo da NBR9050. Novamente, desde que atendesse às necessidades dos deficientes visuais, seguindo um padrão pré-estabelecido, não haveria tantas ressalvas.
 
Novamente, no final do lote, existe um piso tátil de alerta, porém este tipo de sinalização não é previsto na norma.
 

Calçada com inclinação transversal excedente. Notem que a entrada da garagem possui uma rampa que tem início no meio fio e término rente ao piso tátil direcional. Esta inclinação, além de implicar na falta de segurança no percurso, faz com que o pedestre aumente o gasto energético para percorrê-lo.
 
No centro direito da foto, observamos um piso tátil de alerta (amarelo), porém de difícil interpretação. Onde se é para alertar a entrada e saída de carros na garagem deveria haver outro piso sinalizando o término deste obstáculo.
 

Calçada com piso regular, firme e antiderrapante, com instalação de sinalização tátil. Este trecho garante a faixa livre de circulação, com seus mobiliários, placas e postes dentro da faixa de serviço. 
 
Existe composição de sinalização tátil de alerta na esquina, alertando a mudança de direção e, novamente, um rebaixamento com outro “padrão” de sinalização, porém este é mais adequado à norma do que os anteriores.
 
O piso tátil de alerta, quando instalado no rebaixamento de guia, deve ter entre 0,25 a 0,50 m de largura, estando posicionado paralelamente à sarjeta, a 0,50 m do asfalto. Esta configuração é apenas um exemplo mencionado na NBR9050.
 

Rua Padre João Crippa, entre as Ruas 7 de Setembro e 15 de Novembro

O revestimento do piso da calçada é liso, regular, firme e antiderrapante. O piso tátil, em cor contrastante com a do piso, está corretamente instalado, não gerando desnível com o revestimento adjacente.
 
A sinalização de alerta está instalada para indicar a entrada e saída de veículos do estacionamento interno do estabelecimento. 
 
O canteiro (canto inferior direito da foto) não possui quinas, garantindo maior segurança aos pedestres. Porém, está muito próximo do piso tátil direcional, não respeitando a distância mínima de 0,60 m.
 
Mais uma vez, lixo nas calçadas. Notem, no centro superior da foto, outro exemplo das situações citadas anteriormente.
 

Calçada com as mesmas características citadas anteriormente. Não foi mensurado se a vegetação está estreitando a faixa livre de circulação, que deve ter no mínimo 1,20m.
 
Como o canteiro avança sobre a linha do piso tátil, foi feito um desvio para que o deficiente visual não colida contra a árvore. No entanto, o piso tátil poderia ser instalado apenas para indicar a mudança de direção, atendendo, assim, as necessidades deste trecho.
 
A distância lateral entre o piso tátil e sua área lateral deve ser de no mínimo 0,60m, a qual não foi mensurada neste local. Porém, se for menor, o deficiente visual pode acabar tropeçando no desnível formado entre canteiro e o piso.
 
Mais à frente, a garagem está sinalizada adequadamente com o piso tátil de alerta.
 

Rua Bahia esquina com a Avenida Afonso Pena

Calçada com faixa livre de circulação prevista, onde o piso é regular, firme, estável e antiderrapante.
 
Existe a instalação de sinalização tátil em cor contrastante com a do piso, porém a composição de piso tátil de alerta e direcional na mudança de direção (canto inferior direito da foto) não corresponde às especificações da NBR9050.

Rebaixamento de guia presente e sinalizado.


Nesta esquina é notável a desigualdade entre os revestimentos dos lotes, gerando certa poluição visual. A cerâmica (canto esquerdo da foto) não é antiderrapante.
 
Há sinalização tátil, porém desorganizada. O rebaixamento de guia (à direita da foto) não possui nenhuma ligação com o piso direcional da faixa livre de circulação (canto esquerdo da foto). Assim, como um deficiente visual irá saber que existe esta opção de direção e de rebaixamento?
 
Nota-se várias tampas de caixas de inspeção e visita neste trecho, as quais não possuem superfície antiderrapante.
 
Mais adiante (canto superior esquerdo da foto) podemos observar que a vegetação começa a interferir na faixa livre de circulação.


Concluindo
 
Como podemos constatar, as adequações das calçadas de Campo Grande estão muito longe de atender às necessidades da população, lembrando que estas reformas não beneficiam apenas as pessoas com algum tipo de dificuldade de locomoção, mas sim TODAS as pessoas.
 
A gestão deste processo, realizada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (SEMADUR), está sendo ineficiente e omissa às normas de acessibilidade, resumindo o assunto apenas em "piso tátil". Enquanto não houver boa vontade política, estruturando esta Secretaria e oferecendo orientação técnica adequada aos contribuintes, não colheremos bons resultados.

A participação e o comprometimento do CREA-MS são fundamentais para o sucesso deste processo. Além deste Órgão ser responsável pela fiscalização do trabalho dos profissionais nele inscritos, possui mecanismos para disseminar o conhecimento técnico em acessibilidade a Engenheiros e Arquitetos.
 
Resta-nos saber quem vai arcar com os custos de novas possíveis reformas, caso os proprietários de calçadas "já adequadas" sofram novas notificações ou denúncias, já que continuam não atendendo à lei.


Para conferir todas as postagens desta Série, clique aqui.
 

Frederico Rios
 
Análises: Maria Alice Furrer
 
Fotos: Giuliano Lopes (23/07/2011)

 


3 ideias sobre “Série: Calçadas Reformadas (4/4)

  1. Parabéns pela série, excelente conclusão. Campo Grande tem muito a melhorar nas suas calçadas como em qualquer outra cidade, mas a cultura de instalação dos pisos táteis já é uma conquista que muitas, como João Pessoa, não tem. Desejo sorte aos que estão se adequando, que façam sempre de acordo com as normas e com a certeza de que estarão melhorando a vida de muitas pessoas.
    Beijos

  2. O grande problema é que não é a Prefeitura que é ineficiente e sim que a maioria dos profissionais desconhecem inteiramente a NBR 9050 e a Lei Municipal vigente, penso que é o momento dos profissionais se atualizarem.  Campo Grande esta se adequando as normas da acessibilidade, o que precisa é um ajudar o outro, se voce estiver passando por uma calçada que esta sendo reformada em desacordo com a norma, dá uma paradinha e oriente a forma correta, não custa nada a não ser o tempo.

  3.  
    Acredito que antes de se pensar em pisos táteis a sociedade deveria discutir sobre o papel das calçadas como parte do sistema de mobilidade urbana! Um dos maiores entraves para se ter passeio que garanta o conforto, a segurança, a autonomia e a fluidez do pedestre seja o fato de as municipalidades atribuírem a responsabilidade da execução deste espaço PÚBLICO ao munícipe.
     Calçadas devem ser feitas pela municipalidade seguindo um padrão, assim como é com o viário!
     Outro ponto é não mais permitir a apropriação da área de passeio pelo privado. Reparem, que as leis que tratam sobre o assunto permitem toda a sorte de objetos sobre a área de passeio…

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